Esquema em fundos de pensão teria pago R$ 20 milhões em propinas

Operação Rizoma apura pagamento de propinas e uso dos fundos de pensão Postalis (de funcionários dos Correios) e Serpros para investimentos privados

Publicado por Maykon dia em Laja Jato 206 visitas
Esquema em fundos de pensão teria pago R$ 20 milhões em propinas

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (12) operação para investigar irregularidades nos fundos de pensão dos Correios, o Postalis, e do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), o Serpros. O suposto esquema teria incluído o pagamento de R$ 20 milhões em propinas a lobistas e pessoas ligadas aos fundos, informaram a PF, o Ministério Público Federal e a Receita Federal em coletiva nesta quinta.

Dez pessoas foram alvos de mandados de prisão — seis foram presas e quatro já haviam sido localizadas até o início da tarde, de acordo com a PF. Cerca de 140 policiais federais também cumpriram 21 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Distrito Federal. São investigados os crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.

De acordo com o MPF, doleiros ligados ao ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral, que está preso, lavaram dinheiro para o empresário Arthur Pinheiro Machado, presidente do ATG (Americas Trading Group), empresa que atua diretamente no mercado financeiro. Segundo os promotores, o empresário está envolvido em fraudes nos dois fundos de pensão. A ATG movimentou R$ 2,5 bilhões em cinco anos e meio, em operações suspeitas agora investigadas.

Machado foi um dos presos na operação desta quinta-feira. Também foram alvos Marcelo Sereno, que foi assessor de José Dirceu quando ele foi chefe da Casa Civil no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e Milton Lyra, apontado em outras investigações como suposto operador do MDB.

Machado, de acordo com os investigadores, teria pago propina a lobistas responsáveis por indicações de pessoas em fundos de pensão e a funcionários desses fundos.

“É uma organização criminosa que se instaurou dentro do Postalis e do Serpros, que estava ligada a empresas e corretoras que criavam fundos... as investigações começaram há alguns anos, mas agora a gente não visa detectar o desvio de recursos, mas a lavagem de dinheiro, a evasão de divisas e recebimento desses valores", disse o delegado da PF Alessandro Bessa.

— Foram ideztificados doleiros e por meio desses doleiros, por meio de quebra de sigilo, bem como uma colaboração premiada, chegamos ao pagamento de vantagens indevidas e remessas de recursos ao exterior.

De acordo com o MPF, Machado criou um fundo de investimentos em 2010, o Eletronic Tranding Brazil (FIP-ETB), que, inicialmente, teve como principais investidores as empresas de responsabilidade dele e o Postalis, que ingressou com R$ 119 milhões. Três anos depois, o Serpros passou a aplicar no fundo, com os aportes chegando a R$ 72 milhões até 2015.

As investigações apontaram que foram distribuídos pelo menos R$ 20 milhões em vantagens indevidas a lobistas e funcionários dos fundos de pensão. Lyra e Sereno estão entre os destinatários desses recursos, disseram os investigadores.

“Os fundos de pensão têm recursos altos para serem investidos e uma parte é usada em produtos com risco baixo e outros em investimentos para desenvolver a economia brasileira... Mas o que ocorreu no Brasil é que partidos políticos indicaram para fundos de pensão pessoas que escolhiam empresas para fazer aportes volumosos e depois havia cobrança de um kick back (contrapartida)”, disse o procurador Eduardo El Hage, coordenador da Lava Jato no Rio de Janeiro.

A operação foi batizada de Rizoma, uma espécie de caule que se ramifica sob a terra. De acordo com a PF, trata-se de uma referência ao processo de lavagem de dinheiro e ao entrelaçamento existente entre as empresas investigadas.

Sofisticado esquema

De acordo com a PF e o Ministério Público, Machado aplicou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro para o pagamento de propina aos responsáveis pelos fundos de pensão e, para isso, usou doleiros ligados a Cabral.

“As investigações começaram em outubro de 2017 e começou com colaboração premiada que veio espontaneamente e esclareceu que a rede de doleiros de Cabral foi usada para outros crimes", disse Hage.

— Esse colaborador era ligado a Arthur Pinheiro Machado, que queria criar uma nova bolsa de valores... os fundos de pensão aportavam recursos nos fundos dele e Arthur pagava propina aos fundos de pensão.

Em nota, a defesa de Machado e de Patricia Iriarte, também alvo da operação e que é ligada à ATG, disse refutar "de forma veemente, qualquer relação entre os empresários e atos ilícitos".

"Informa que ambos sempre agiram no mais absoluto respeito à legislação e que não compactuam com práticas ilegais", acrescentou a nota.

Os advogados Pierpaolo Bottini e Alexandre Jobim, que representam Lyra, afirmaram que o empresário "já havia se colocado à disposição da Justiça do Distrito Federal, que apura o caso, para esclarecimento dos fatos".

"(A defesa) afirma também que as atividades profissionais do empresário são lícitas, o que já foi comprovado em diversas oportunidades, e que seu cliente continua à disposição para colaborar com a Justiça e com a investigação."

A defesa de Sereno não foi imediatamente encontrada para comentar.

O advogado Rodrigo Roca, que defende Cabral, foi procurado pelo R7, mas ainda não enviou um posicionamento.

 


Maykon

Colunista: Maykon Silveira

Cadastrado dia 02/05/2018